Textos Copiados

Thiago de Mello
Madrugada Camponesa
Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-a-dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

(Faz escuro, mas eu canto).

Para os que virão
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente –
na primeira e profunda pessoa
do plural.Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.


Podes? – Nicolás Guillén

Podes vender-me o ar que passa entre teus dedos

E golpeia teu rosto e desalinha teus cabelos?

Talvez possas vender-me cinco moedas de vento?

Ou mais, talvez uma tormenta?

Acaso me venderias ar fino – não todo –

O ar que percorre teu jardim de flor em flor

E sustenta o vôo dos pássaros?

Dez moedas de ar fino, me venderias?

O ar gira e passa na asa da mariposa.

Ninguém o possui. Ninguém!

Podes vender-me céu?

Céu azul por vezes, ou cinza, também às vezes,

Uma parte do teu céu, o que compraste, pensas tu,

Com as árvores do teu sítio, como quem compra o teto com a casa?

Podes vender-me um dólar de céu?

Dois quilômetros de céu, um pedaço,

O que puderes, do “teu” céu?

O céu está nas nuvens. Altas passam as nuvens.

Ninguém o possui. Ninguém!

Podes vender-me chuva?

A água que forma tuas lágrimas molha tua língua?

Podes vender-me um dólar de água da fonte?

Um nuvem crespa, me venderias?

Ou, quem sabe, água chovida das montanhas?

Ou água dos charcos, abandonada aos cães?

Ou uma légua de mar, talvez um lago?

A água cai e corre. A água corre. Passa.

Ninguém a possui. Ninguém.

Podes vender-me terra?

A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros,

A cauda espessa de longínquos esqueletos?

Podes vender-me selvas já sepultadas, aves mortas,

Peixes de pedra, enxofre dos vulcões,

Milhões e milhões de anos em espiral crescendo?

Podes vender-me terra?

Podes vender-me?

Podes?

A tua terra é terra minha, todos os pés se apoiam nela.

Ninguém a possui. NINGUÉM!


Ventos do povo  –  Victor Jara

De novo querem manchar
Minha terra trabalhadora com sangue
aqueles que falam de liberdade
e têm as mãos negras.

Os que querem separar
a mãe dos seus filhos
e queremos reconstruir
a cruz que arrastara Cristo.

Eles querem esconder a infâmia
herança de séculos
mas a cor de assassinos
não saiu de seu rosto.

Foram milhares e milhares
aqueles que deram o seu sangue
e generoso fluxo
multiplicado os pães.

Agora eu quero viver
com o meu filho e meu irmão
a Primavera
que estamos construindo dia a dia.

Eu não tenho medo de ameaças,
dos patrões da miséria,
a Estrela da Esperança
continuará a ser nossa.

Ventos do povo me chamam,
ventos do povo me levam,
apaziguam-me o coração
e me arejam a garganta.

Assim cantará o poeta
enquanto a alma soa para mim
os caminhos do povo
agora e sempre.


Movimento- Derli Cassali
Há um movimento
perfilando
em cada canto,
fustigando a voz
que foi abafada.Há um movimento
se refazendo
debaixo do caldeirão,
aquecendo o dia que
será festejado
do amanecer até o anoitecer.Há um movimento
das consciências
negras
se encontrando no mesmo terreiro,
no mesmo barraco
e tomando banho no mesmo rio.Há um movimento
removendo o medo
que foi instalado
na inocência de nosso corpo
e resgatando a coragem que venceu a Cruz.

Há um moviemnto
vasculhando memórias,
culturas,
tecendo na incerteza do amanhã
a certeza da vitória.

Há um movimento
rebelde
se fazendo sonho
na vida do povo
que está atravezzando
o deserto.

Há um movimento
volvendo a terra,
enfrentando conflitos,
recusando as palavras
que são apenas palavras.

Há um movimento
na boca da noite,
no meio do picadão,
forjando o tempo novo
entre o fogo e a cinza.

Há um movimento
na barriga de nossa
querida AMERÍNDIA,
anunciando
o dia que vem depois.


Diva Lopes-
Concentração de direitos  (aos que acreditam no que constroem):
Necessitamos de um tempo que plante ideias e pratique ações transformadoras. Que desmonte as ordens de quem escraviza. Que provoque desejos desmedidos. Que humanamente eduque as gerações.
Não aceitamos mais,
As diferenças faces da mesma dor,
A morte da sensibilidade,
A concentração de direitos
O não tempo para o amor,
A prisão da liberdade!


O Universo não é uma ideia minha – Alberto Caeiro

A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso


Campesino – Júnior Longo

Ter as mãos calejadas do cabo das ferramentas,

Sentir o sol escaldante e o aço das tormentas,

Regar com meu próprio sangue a saúde das lavouras, garantir com meu suor, grandes safras duradouras,

Obter da terra virgem total fertilidade, meu calor, minha coragem, tragando a tempestade, assim é que me coloco, sou poeta, sou posseiro, neste mundo desafeto, deste solo brasileiro.

Guerreando o granizo e o fogo das sanções, enfrento na minha enxada a ganância dos patrões.

Ergo alto minha viola, a trombeta da vitória, executo minha toada, construindo nossa história.

E se preciso for, empenho meu coração, como quem faz amor, enfrento a exploração.

Sou triste, mas tenho fé, sou louco, mas muito forte, temente da natureza, mas cúmplice até da morte.

Em busca da nossa terra, nos solos do meu País, a minha viola berra, vitória sobre os fuzis.

Meu pé descalço chuta outros pés imperiais, nos hinos da nossa luta, habitam versos fatais,

E quem duvidar se atreva, que entre nesta batalha,

Conosco a natureza, e terra para quem nela trabalha.

Assim é que me atiro, neste mundo conturbado,

Sou pobre, porém posseiro, homem determinado. disposto, pela justiça, a morrer pelo cerrado, pedaço do meu Araguaia, não mais deixo ser grilado.

A terra só se contenta em braços que dão amor, aonde ela se integra às metas do Criador.


Legião Rural –  Chico Mendes/Valter Arauto

Senhor Deus,
O Planeta terra que herdei foi confiscado
E eu me consolo em vagar por um solo alheio,
E no espelho do passado vejo a terra nascer bela e nua.

Meu teto são as estrelas,
Estou coberto pela poeira que minha legião
levanta pelo caminho da vida.
Luto pela terra.
Luto pela reforma.
Luto pela vida perdida em um confronto por terra.

Meu horizonte é um arame farpado,
e no gramado estão as plantas dos meus pés.
Senhor Deus,
Estou de luto,
Estou sem terra…
Mas ainda luto.


O Povo –  Pablo Neruda
Lembro-me daquele homem e não se passaram
mais do que dois séculos desde que o vi,
não andou de cavalo nem de carroça ;
descalço
anulou as distâncias
e não levava espada nem armadura,
apenas redes ao ombro,
machado ou martelo ou pá,
e nunca espancou o seu semelhante ;
a sua luta foi contra a água ou a terra,
contra o trigo para que houvesse pão,
contra a árvore gigante para que desse lenha,
contra os muros para abrir as portas
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